
Na década de 90, a integração externa e a globalização em larga escala levaram a aplicações novas como, por exemplo, a reutilização de componentes, análise, programação limitadas a objetos, que permitem essa integração e produção de sistemas com velocidades cada vez maiores. Levaram a www às listas de distribuição, permitiram criar essas coisas com maior rapidez. Hoje fazer sistemas significa ir à internet ou a fornecedores, buscar componentes e montá-los muito mais rápido do que antigamente era o desenvolvimento. A anti-narrativa foi a reação aos novos monopólios, entendam aqui como Microsoft e etc. Como resultado disso surgiu o software livre, o Napster, o Kazaa, etc, e a informática comunitária.
A sociedade, fora da lógica econômica, também se apropriou de maneira muito criativa da informática comunitária, com os chats etc. Os adolescentes de hoje vivem isto de maneira muito intensa, sem a lógica econômica: provavelmente eles estão muito adiante de nós no uso dessas tecnologias. O discurso "eu quero controlar o meu tempo" levou-os a usar a informática para o seu próprio tempo, para a sua própria velocidade de maneira extremamente intensa. Depois que a anti-narrativa criou essas soluções é interessante verificar que as soluções foram apropriadas pela narrativa econômica, isto é: o software surgiu como reação aos monopólios, mas em seguida as organizações com fins lucrativos se apropriaram desse recurso para aumentar ainda mais a sua velocidade, o seu resultado. As ferramentas de informática comunitárias - os chats, os fóruns, o correio eletrônico, etc - foram usados também pela narrativa oficial. Interessante que uns se apropriam do discurso do outro.
Groupware, educação à distância, portais de compras, supply chain management são coisas que surgiram da narrativa oficial e da aceleração contínua dos negócios de enquadramento, de aprisionamento cada vez maior das pessoas numa aceleração maior. Surgiram na anti-narrativa, em comunidades de prática de inclusão digital, como política pública, que por sua vez surgiram como reações a essa situação com muita eficiência. O ponto que eu queria colocar é que nós, profissionais de sistemas, em geral nos fixamos nas aplicações de TI resultantes da narrativa econômica, da narrativa privilegiada oficial. A grande oportunidade de uso da informática, porém, vem da reação a essa narrativa, da reação de quem busca a liberdade do indivíduo, que busca a auto-determinação e para isso cria ferramentas de informática extremamente poderosas. A idéia que estou querendo vender para vocês é a de que, inclusive no governo, temos um espaço muito grande aqui no Brasil que está subtilizado: fornecer para a sociedade serviços que estão muito mais ligados ao indivíduo do que à lógica econômica de sistemas de governo.
No futuro nós teremos hipercompetição, regulação, webservices, extreme programming, padronização de processo. Tudo isso são coisas que resultam da narrativa oficial de aceleração, de integração cada vez maior de processos. Qual é a anti-narrativa? Aqui há um negócio muito importante que gostaria de colocar (independente de vocês conseguirem ler). Observem que há muito mais coisas surgindo no quadro das anti-narrativas do que no quadro da narrativa privilegiada econômica. A Wikipedia deve ser a grande contribuição desta anti-narrativa. Ao invés da sociedade depender das empresas que fornecem informações, deve-se mobilizar a sociedade para ela suprir as informações na sua velocidade, à sua maneira, no seu ritmo. A Wikipedia hoje certamente é uma enciclopédia de qualidade comparável com qualquer enciclopédia comercial. No fundo, o que faz a Wikipedia é se apropriar da inteligência coletiva fornecida de maneira voluntária pela sociedade, no seu ritmo e na sua velocidade. Esse é o exemplo mais marcante, na minha opinião.