Ano I, nº 2 - maio de 2007
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Nosso conceito de tempo e a crise na área de Tecnologia da Informação

Essa mesma situação ocorre em situações de procedimentos médicos: o médico, ao lado do leito do paciente - em um pronto-atendimento, em uma UTI - também tem situações de decisões extremamente intensas para as quais ele precisa desse suporte de informações. Acho que nós temos um grande espaço para as inovações tecnológicas, basicamente multimídia, e a convergência digital tem recursos para que atuemos nesta área. Infelizmente tenho visto que na área pública temos investido muito pouco nessas tecnologias e, portanto, temos pouco suporte para oferecer a esta vida instantânea. E aqui existe uma enorme oportunidade de atuação.

Agora que o meu tempo está chegando ao fim, queria fazer uma tese e uma antítese realmente fazer aquela anti-narrativa. Até agora falei do tempo controlado, aquele tempo em que nós ou controlamos o passado ou controlamos o presente acelerando o futuro e tornando-o previsível. Mas é aquele tempo que nós podemos dividir em semanas, dias, horas, minutos e segundos que é o grande símbolo da modernidade, da aceleração e é o que fizemos até agora na área de sistemas e com muita competência. Justiça seja feita: fizemos isso muito bem ao longo dessas últimas décadas. No entanto, existe uma outra realidade (agora vem a anti-narrativa), que é um tempo diferente desse tempo controlado, mensurável, colonizável, que muitos sociólogos chamam de tempo escolhido, que inverte a lógica econômica. Esse é o tempo que parte da premissa de que as pessoas têm que ter o direito da escolha, da estrutura, da intensidade do seu tempo de trabalho, do seu ritmo de trabalho. A escolha entre os momentos em que vão alternar entre trabalho e outras atividades, não com objetivos econômicos, mas ao ritmo de toda existência individual.

Vocês vão dizer que isso é uma utopia na cidade grande, talvez no interior as pessoas ainda tenham direito a essa escolha, ainda exista um tempo escolhido. Nós somos tão escravos do tempo controlado que iremos escolher só depois do dia em que nos aposentarmos - até lá não vai acontecer. Será que existe o tempo escolhido, nós temos essa opção? Será que a sociedade tem o direito dessa aspiração? No fundo, isso significa o direito de viver no tempo de fluxo, aquele tempo que não é mensurável, é contínuo e que faz parte da vivência humana. Quero mostrar que sim, que existe essa opção, nós temos essa opção e as grandes oportunidades dos sistemas de informação, da nossa tecnologia da informação, estão aqui. Possivelmente seja uma das opções, das oportunidades, de nós nos tornarmos novamente altamente relevantes.

Quero falar um pouquinho da história dos sistemas de informação em dois gráficos. Um mostra a evolução ao longo do tempo (a escala de tempo, vejam aqui que a escala de tempo é quase que logarítmica), as aplicações e as considerações sobre o tempo controlado, isto é, aquela nossa lógica de tempo habitual a lógica econômica daquilo que nós fazemos nas organizações. Mostra os discursos que justificam essas aplicações e as aplicações. No outro gráfico está a anti-narrativa, a idéia do tempo escolhido, o tempo que não tem a lógica econômica, mas que tem uma lógica da vida, das pessoas, da sua real existência, dos seus objetivos pessoais. As aplicações que resultam dessas visões e a narrativa que justifica essas visões.

Até a década de 60 (vocês não tinham nascido ainda, mas eu já estava lá), a narrativa privilegiada era busca de eficiência, a produção industrial, a lógica da produção em larga escala. Disso resultou em primeiro lugar o desenvolvimento artesanal de software, depois a engenharia de software, que vocês e eu usamos para fazer sistemas, ciclos de vidas, automação, sistemas transacionais localizados. Ao mesmo tempo, surgiu uma anti-narrativa, que é a resistência à mudança de quem se opunha ser enquadrado nessa lógica do tempo controlado.

O que surgiu, em função disso, foi o enfoque sócio-técnico, principalmente na Europa, que tem uma legislação de proteção ao trabalho muito mais desenvolvida do que a nossa, exigindo que as modificações nos processos de trabalho fossem negociadas com os sindicatos, com as comissões de fábricas, como maneira de preservar, de não escravizar tanto o trabalhador nesse tempo controlado e ter ainda o espaço para esse tempo de fluxo, para essa vivência do indivíduo. Surgiram metodologias de desenvolvimento de sistemas que levavam esse discurso em consideração que nós nem sequer usamos aqui no Brasil, uma das minha grandes frustrações. Fui professor desta matéria durante décadas e a aplicabilidade na nossa realidade foi mínima. O discurso da resistência, contra a mudança, sempre foi muito fraco no Brasil, e o que prevaleceu foi a narrativa da lógica econômica com as suas metodologias.

O tempo foi passando e fomos aumentando a aceleração dos processos com a integração interna dos nossos sistemas, criando os nossos SIAFI, SIAFEN, FINCON, que são tipicamente exemplos de lógica e de eficiência econômica perfeitamente justificáveis. Em função disso surgiram os IPs, surgiu a computação pessoal, a inteligência competitiva, as redes, etc. A anti-narrativa é interessante porque trouxe contra isso, de um lado, a reação dos usuários ao monopólio do CPD (lamento informar a vocês que nasceram na década errada, na época que o CDP tinha o monopólio era muito mais tranqüilo). Dizíamos para o usuário que não dava para fazer e o usuário não tinha como retrucar, tinha que aceitar. Hoje ele está muito mais indócil, não aceita mais isso. Mas a anti-narrativa surgiu nessa reação ao monopólio, aos conflitos de poder, em função do enquadramento cada vez maior pelos usuários que por conta desse sistema, criou esse discurso: não criou metodologias, mas criou reações a essa situação.