
Vocês vão dizer que tudo isso é muito filosófico, onde eu quero chegar com isso? Vou dar um exemplo e Vinicius de Moraes me ajudou tremendamente nisso aqui. Vocês devem conhecer o Soneto da Fidelidade, do seu tempo de infância. Eu queria chamar a atenção, obviamente para o soneto, sempre, para o ponto alto dele, que são os últimos dois versos, que queria ler para vocês. Acho que reflete, que exemplifica bem, essa vida instantânea para depois discutir aplicações de informática:
E assim, quando mais tarde me procure quem sabe a morte, angústia de quem vive, quem sabe a solidão, fim de quem ama.
Eu possa me dizer do amor (que tive): que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure.
Eu quero tratar um pouco, em informática, desse 'momento infinito' enquanto durou, dessa instantaneidade. O que isso pode significar para a informática? São situações de vida extremamente intensas, em que ocorrem coisas ao redor e que exigem decisões, que às vezes são decisões de conseqüências muito grandes. Como: vai desviar, vai frear, o que ele vai fazer? Nesse momento precisa-se ter um máximo volume de informações possível para que se tome a decisão correta, não apenas o máximo de informações, mas sim o máximo de informações relevantes para aquela decisão. Vocês, como motoristas, sabem quais são essas informações.
Obviamente nossos sistemas de informação, em geral, não ajudam muito nessa situação, mas deixem-me usar uma outra situação na qual nossos sistemas estão fazendo isso com muita competência. Alguém de vocês vem do mercado financeiro? O operador de mercado de capitais, o operador de bolsa que está no seu posto de trabalho tendo que decidir em questões de segundos se compra, se vende um título, qual o título que vai aplicar. Em frações de segundos ele toma decisões que, conforme a carteira que administra, pode significar milhões. Que informações ele precisa naquele momento? Precisa De informações extremamente atualizadas sobre notícias, evoluções, tendências, análises, etc. Normalmente ele tem à sua frente uma série de monitores com múltiplas informações, mas não basta: a informação tem que ser fornecida de um jeito que num "piscar de olhos" ele entenda o que está acontecendo.
Isto significa que nós temos que ampliar para ele a realidade que enxerga e temos que atenuar coisas que não são importantes para aquela decisão naquele momento. Não podemos soterrá-lo com informações, se não ele não vai poder utilizar nada daquilo. A vida instantânea não é só obter informações, mas agir rapidamente também, então nossos sistemas têm que fornecer para ele a condição de rapidamente implementar a decisão que acabou de tomar. Isso é um bom exemplo de vida instantânea extremamente intensa, cheia de tensões, para as quais nossos sistemas podem produzir informações muito importantes. Podemos ter situações dessas, talvez não tão intensas como as do operador de mercado de capitais, mas, por exemplo, como auditor, que está auditando uma empresa, uma situação: também há um momento em que ele precisa ter essas informações muito bem formatadas e alguém que forneça para ele, naquele curto espaço de tempo, as condições para que tenha essa intensidade de raciocínio, de reflexão, de ação, que o seu trabalho exige.
Creio que os nossos sistemas de apoio à decisão não estão preparados para essa intensidade, para essa aceleração dos processos que a modernidade líquida está nos exigindo. Freqüentemente os nossos patrocinadores não entendem que fornecer esse tipo de suporte custa muito mais caro do que aqueles sistemas seqüenciados, tradicionais, de suporte a transações que nós temos criado. Mas entendo que, nesse momento, temos condição de prestar um serviço de qualidade e impacto muito maiores do que nós temos feito até então.