
Isto leva a uma idéia que os filósofos chamam de kairos, que é o momento certo, aquela janela de oportunidades, aquele momento de fazer as coisas: ou você faz naquele momento ou não faz mais. Um dos autores dizia o seguinte "o momento certo é planejado, o momento oportuno, que é o kairos, é do destino. O homem o reconhece ou não o reconhece e reage a ele". Eu gostaria de falar um pouco deste momento oportuno porque creio que aqui temos uma outra oportunidade para os nossos sistemas. Parece muito teórico, mas vamos procurar ser um pouco mais objetivos. Um dos grandes desafios para nós, na área de sistemas, são as inovações de ruptura, aquelas inovações que claramente mudaram o rumo da história.
No caso das inovações de informática de ruptura vamos enumerar algumas: nos últimos 20 anos, o que mudou claramente o rumo do uso da informática? A internet talvez tenha sido a inovação de maior ruptura: nós não a previmos, ela aconteceu por outras razões, mas nós, em geral, soubemos nos aproveitar muito bem dela. Os nossos sistemas de governo eletrônico são a expressão de que nós sabemos fazer isso muito bem. Outra inovação de ruptura é o genoma humano, o DNA, na área de Medicina. Tem gente que diz que essa foi a inovação de maior ruptura que a humanidade teve nos últimos 50 anos. Em termos de sistema, alguma inovação? O microcomputador certamente foi uma inovação de ruptura enorme, foi mal reconhecida na época, em 1980, quando pesquisadores da IBM fizeram o primeiro microcomputador. Teve gente da própria IBM que disse que era brincadeira, que não era coisa séria, e foi descartado. Tanto que não investiram em um sistema operacional devia ser feito até que apareceu um indivíduo que achou que isso poderia dar algum dinheiro e parece que deu algum dinheiro a ele. Quanto ele possui hoje? Setenta bilhões de dólares e 100 mil funcionários. Claramente foi uma inovação de ruptura que poucos reconheceram quando surgiu.
Aliás, esse é o problema das inovações de ruptura: é o desafio em reconhecer precocemente o potencial e o impacto dessas inovações. Acho que já chega de inovações para entender esse negócio. As inovações de ruptura, na realidade, nunca vêm sozinhas e sempre se anunciam com antecedência. Vamos pegar, por exemplo, a internet: ela não aconteceu por acaso. Vimos o grande salto quando surgiu o browser, que permitiu esse grande depositário de dados. Mas para que isso tivesse algum impacto, muita coisa aconteceu antes. Na década de 70 a Harpa já havia criado a internet e padrões de comunicação. Na década de 80, os custos de comunicação baixaram, o microcomputador se popularizou e houve uma capilaridade do acesso à tecnologia. Na década de 90, houve uma capacitação generalizada da sociedade em usar esses recursos. De modo que, quando surgiu o browser, quando Berners-Lee criou o browser, toda a infra-estrutura já estava pronta esperando aquela inovação que fez transbordar o negócio. Por isso digo que as inovações de ruptura se anunciam com muita antecedência. O microcomputador também se anunciou com muita antecedência, com a miniaturização dos componentes e tantas outras coisas.
Então essas inovações de ruptura têm um crescimento, que é o preparo, existe um momento no qual alguém tem que tomar a decisão de querer ou não investir (e isso vai depender da propensão a riscos, porque há inovações que não vão para frente e há outras inovações que, neste momento, talvez tenham um potencial menor, mas que vão muito mais longe). Quem é mais propenso a risco adota antecipadamente, mas obviamente também corre o risco de "dar com os burros n'água". Quem é mais conservador espera aquela inovação estar mais consolidada para investir. O kairos, o momento oportuno de cada um, é diferente conforme o tamanho do seu bolso, do risco que se pode correr, da sua propensão a risco, etc. Na realidade não se adota apenas a internet, mas deve-se adotar um monte de outras coisas que estão em volta para aquilo funcionar. O grande desafio gerencial, em inovações de ruptura, é reconhecer o momento adequado, oportuno, o kairos, para fazer a transição entre tecnologias. Por exemplo: quem investiu tardiamente em clientes e servidores de repente "deu com os burros n'água", porque agora há uma outra tecnologia, obviamente diferente, que coloca em dúvida aqueles investimentos. Aqui está, creio, um dos grandes desafios nossos, profissionais de sistemas: o de identificar esses momentos oportunos para fazer nossos investimentos. Há erros e acertos grandes nisso e a experiência profissional de vocês deve lhes dar um monte de exemplos para isso.
Sobre o tempo de fluxo, Zygmund Bauman fala na modernidade líquida. Ele diz o seguinte: "a modernidade, época na qual vivemos, não é uma estrutura fixa, é tudo móvel, é tudo mutável, as coisas são cada vez mais rápidas, e por conta dessa maior rapidez existe uma fluidez, uma indefinição, uma incerteza crescente nas coisas". Ele também diz que: "Nesse momento, nessa modernidade, o que dá poder a uma pessoa, a uma organização, não é o controle de ativos, de equipamentos, de prédios, de coisas, mas é o poder de controlar o tempo de processos, de acelerar ou de retardar processos, é o poder de segurar uma coisa". Então o controle do tempo é o que vai dar poder nessa modernidade. Ele diz ainda que, por conta disso, de exercer cada vez mais poder, a aceleração ao extremo cria a instantaniedade, no sentido de que a pessoa espera que tudo se concretize, tudo aconteça naquele momento. É a vida instantânea cada vez mais recheada de coisas, no momento em que a gente quer cada vez mais coisas, que pode elevar alguma coisa como o momento com capacidade infinita.