Ano I, nº 2 - maio de 2007
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Nosso conceito de tempo e a crise na área de Tecnologia da Informação

Manuel Castells diz que esse problema de rede apresenta mais um problema e nós, como pessoas de sistemas, temos um desafio maior. Essa compressão da ocorrência de simultaneidade aparente é um modo complicado de dizer o seguinte: esse destinatário - entenda-se aqui o consumidor de notícias em tempo real que está ligado na CBN, na CNN, em todos os canais de notícias - recebe continuamente uma enxurrada de informações sobre o que está acontecendo naquele momento. Mas aquelas notícias vieram de muitas partes do mundo em tempos diferentes, ainda que para ele pareça que está tudo acontecendo agora - um terremoto em algum lugar, uma guerra em outro, um jogo de futebol em outro lugar, um crime num quinto lugar, etc, o destinatário perde a noção de tempo, aquele tempo linear, e parece que as coisas ocorrem ao mesmo tempo. Como tratamos essa questão, esse aspecto de simultaneidade aparente, se perdemos a noção de tempo? Isso para dizer que o nosso conceito de tempo agora é relativo e deve ser revisto em muitos casos.

Agora, vou tratar da anti-narrativa para introduzir as novas possibilidades de sistemas, que estão bem diferentes daquilo que habitualmente a gente fazia. Vou introduzir uma lógica diferente para fazer sistemas e para isso uso um pouquinho de filosofia: o tempo não mais como uma seqüência de instantes que eu possa medir no relógio, mas o tempo como um fluxo contínuo e indivisível. Os filósofos trataram disso há muito tempo, então uso uma frase aqui: "Minutos que correm são o tempo linear - o relógio que está andando, o ponteiro de segundos que está se movendo - e momentos que duram". Exemplo disso é que todos nós temos aquelas experiências nas quais esquecemos o tempo ou o tempo ficou irrelevante. Se estivermos tão imersos naquele momento, naquela realidade, o tempo não existirá mais e será totalmente irrelevante querer contar aquilo em minutos, em segundos.

Lembram do seu primeiro namoro? Imaginem aqueles encontros tão agradáveis. Ninguém contava minutos, segundos e se alguém dissesse que já havia passado três minutos, alguém diria que era um absurdo contar isso em minutos. Isso é o tempo de fluxo ou o tempo vivido, de acordo com Bergson. E vocês podem dizer: "O que isso tem a ver com sistemas"? Por isso quero explorar um pouco mais o assunto.

Uma das maneiras de entender esse tempo de fluxo é o que a socióloga Lucy Suchman chamou de ação situacional, cuja idéia é a seguinte: uma coisa que está mudando continuamente não é realmente planejável. Um outro autor disse que nossos grandes sistemas de informação estão à deriva, como um barco, o que exige o que ele chama de bricolagem, uma improvisação de concertos momentâneos. Talvez a metáfora que Suchman use seja um pouco mais útil para nós. Ela diz o seguinte: imaginem alguém que faça canoagem em águas turbulentas. (Alguém de vocês faz canoagem em corredeiras? Imaginem o que seja isso. Eu nunca fiz, tem que ter um bocado mais de coragem do que talvez eu tenha).

Mas ela diz o seguinte: aquele que participar de uma competição de canoagem deste tipo, antes de entrar no barco, anda na margem do rio e vai olhando o que acontece: tem uma pedra aqui, uma árvore ali, uma corredeira lá, depois tem um trecho mais tranqüilo, depois não sei o quê. Então ele pensa: aqui vou mais à esquerda, depois vou para a direita, e vai planejando o trajeto que fará com seu caiaque. Quando ele começa a competição, porém, sai tudo errado, diferente e o que ele vai fazer? Apesar de saber que ali tem uma pedra, ele vai remando do jeito de que dá, vai resolvendo no momento. Isso é o que ela chama de ação situacional: os problemas que surgem. Em grande parte, quando fazemos sistemas, eles são muito parecidos como o caiaque nessas águas turbulentas, temos que resolver problemas emergentes de maneira que talvez não tivéssemos planejado anteriormente e aí vai valer o remador mais experiente, o que souber remar melhor, aquele que puder resolver melhor os problemas daquele momento. Nessa situação e com esta visão aquele tempo perfeitamente subdivisível, planejável, controlável, colonizável não vale mais, porque o futuro é emergente e nós temos que atuar nele. Muita gente gosta de usar para isso a metáfora do jazz. Alguém de vocês toca jazz? Não? Que pena, é bacana. Quem aqui aprecia jazz? Bom, várias pessoas. E o que é a coisa fantástica no jazz? A improvisação. Quanto melhor o músico, quanto maior o repertório que ele tem, maior a cultura musical dele e mais ele consegue improvisar, se adaptar aos demais músicos do conjunto. Então o interessante nessa ação situacional é a improvisação. Isso é o tempo de fluxo, para o qual as nossas técnicas de produção de sistemas, de planejamento perfeito, com ciclos de vida predeterminados, com metodologias pré-definidas em geral, não funcionam. Nós teríamos que fazer sistemas de maneira diferente para dar suporte a esse improvisador, a esse remador do caiaque, a esse indivíduo que está vivendo aquele futuro emergente, imprevisível.