Ano I, nº 2 - maio de 2007
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Nosso conceito de tempo e a crise na área de Tecnologia da Informação

As séries de tempo anotadas seriam importantes para isso: para guardar, junto com as séries de tempos, estudos ou observações sobre tendências, fatos anômalos e, principalmente, uma das coisas que eu tenho sentido falta quando vamos analisar - as conformidades de dados de ações passadas devem ser feitas à luz das normas vigentes naquela época. Como nós armazenamos junto com os dados quantitativos uma outra linha do contexto contendo as normas vigentes em determinada época? E como poderíamos fazer para que a pesquisa ficasse mais fácil? Essas normas foram criadas em momentos diferentes, têm vigência e validades diferentes, e se as considero em um dado momento, desejo saber a conformidade deste dado. Se eu tivesse um sistema que me fornecesse alguma coisa com todas as normas, como elas eram válidas ou impostas naquele momento, facilitaria muito a minha interpretação dos dados. Como registrar e permitir a recuperação de dados e informações do contexto para a interpretação correta dos dados? Acho que nesse momento nós temos alguma coisa muito importante para fazer, o que nos transformaria de bibliotecário em curador de museu.

Agora vou começar um pouco com a anti-narrativa e umas das coisas é que o conceito de tempo que nós temos - dia, hora, medidos pelo relógio (aliás, eu estou olhando o relógio para ver se não passo demais do tempo) - esse conceito de tempo talvez não valha mais em muitas situações. O sociólogo Manuel Castells diz que na realidade nós temos um problema e ele fala no tempo intemporal, um negócio meio esquisito, que quero dar um exemplo aqui. Imaginem que temos uma rede e que isso seja a internet - e lembrem-se que a internet não tem tempo de entrega perfeitamente previsível: o tempo de entrega de uma mensagem, de uma comunicação, pode ser variável de acordo com a situação nos nós, na interrupção e na busca de novos caminhos, etc. Se o remetente 1 e o remetente 2, digamos que todo mundo, tivessem o mesmo relógio global, com um mesmo momento e enviassem para este mesmo destinatário uma mensagem exatamente no mesmo momento, não há nenhuma garantia de que essas duas mensagens dos dois remetentes chegariam aqui ao mesmo tempo. Aliás, não dá nem para saber qual das duas vai chegar primeiro, talvez uma delas nem sequer chegue ao destinatário. Se o destinatário tiver o seu conceito de tempo, o seu relógio global, isso não quer dizer muita coisa, porque as mensagens vão chegar em tempos diferentes, logo aquele relógio não vai dizer muita coisa.

Imaginem que o destinatário seja um operador de leilão que está recebendo lances dos vários participantes desse leilão. Obviamente que o leilão depende da ordem de chegada dos lances, para saber em que ponto está o leilão, em que momento tem que ser fechado. O leiloeiro prevê quem dá o lance antes, a notícia chega ao leiloeiro e ele diz: "Agora o valor mínimo do leilão passou a ser R$5,00". Se outra pessoa manda uma mensagem depois oferecendo R$5,00 por aquele lote, o leiloeiro diria: "Lamento informar, já tenho um lance de R$5,00 - a sua resposta chegou tarde". Eventualmente, o que pode ter acontecido, se for pela internet, é que o remetente 2 pode ter enviado a mensagem um décimo de segundo antes, mas ela pode ter chegado depois. Acaba acontecendo que aquele tempo linear já não vale mais e o tempo que realmente deve ser usado para entender o que é um leilão tem que ser renegociado entre as partes. Ou seja: temos que ter um novo protocolo, um novo entendimento do que é tempo, o que é antes e o que é depois.

Como fazemos isso na internet? Fazemos por exemplo por meio de cartórios digitais, que eu chamo de certificadores, que colocam um carimbo de tempo das mensagens que recebem, como se fosse o carimbo do correio só que, claro, muito mais preciso por milésimos de segundos, e envia esta mensagem para o destinatário. O certificador também garante que a mensagem do remetente é verdadeira e que depois ele não vai poder dizer: "Não mandei essa mensagem, alguém mandou em meu nome". O certificador não só coloca um carimbo de tempo, mas também garante a irrevogabilidade desse evento. Isso significa que em um leilão, o remetente não pode se arrepender depois do lance que deu. A mesma coisa acontece com o remetente 2 que manda para o certificador 2 e ele coloca um carimbo de tempo: agora o tempo que vai valer para o destinatário, para o leiloeiro, é o tempo do carimbo desses certificadores. E se o tempo entre enviar essa mensagem e o certificador for indefinido vale o tempo do remetente, vale o tempo do certificador ou vale o tempo de quem recebeu?

Isso tudo é para dizer que o tempo linear passa a ser uma ficção, na realidade temos que ter um novo protocolo, uma nova negociação do que seja tempo. Obviamente isso só acontece porque estamos em um ambiente de rede, onde os tempos de transmissão são variáveis. Como é que nós, de sistemas, vamos tratar disso? Já não podemos tratar do ponto de vista puramente técnico. Inclusive uma questão de tempo passa a ser uma questão de negociação entre as partes e às vezes essas negociações são extremamente complicadas, com conteúdos políticos extremamente fortes, o que cria uma relativização daquele conceito tradicional de "fazer" sistemas.