Ano I, nº 2 - maio de 2007
» Expediente

Nosso conceito de tempo e a crise na área de Tecnologia da Informação

Agora uma coisa bem prática para nós, profissionais de sistemas, e acho que para vocês que estão muito próximos de atividades como controle interno, por exemplo. É uma coisa que nós, como profissionais de sistemas, já fizemos bem mais, já fomos muito competentes para criar sistemas de informações que registrassem de maneira muito precisa o passado de nossas organizações, os nossos sistemas contábeis, etc, que registraram com muita precisão o passado. No entanto isso não quer dizer muita coisa, a menos que consigamos, hoje, recuperar dados do passado e fazer uso desses dados no presente. O registro de dados no passado é apenas para constar, não nos ajuda muito, mas nós o fazemos para podermos usá-lo no presente. No entanto, usar dados do passado no presente significa sempre uma reconstrução do passado a partir de um ponto de vista que utilizamos hoje e cada um que recupera dados do passado o faz de maneira diferente, com interpretações diferentes. Jorge Medi e outros dizem que "na realidade, o passado não é fixo, mas é reconstruído continuamente por cada um que olha para este passado e o reconstrói de maneira diferente". O passado não é conhecido, é refeito a cada momento. Porque que isso acontece? Porque os dados do passado têm de ser interpretados de acordo com o contexto no qual eles ocorreram, e esse contexto é típico daquele momento e é definido pelos nossos interesses hoje. Cada um que olha para o passado o vê com um interesse diferente e vai encontrar coisas diferentes. Para os filósofos isso cria claramente a questão de hermenêutica, isto é, a maneira como nós interpretamos o passado, se nós interpretamos o passado a partir dos valores, dos critérios.

O importante é fazer sistemas que permitam uma recuperação mais justa do passado, não apenas trazendo os dados numéricos, o que quer que sejam em si, mas permitindo também reconstruir o contexto do passado, os valores do passado, para que esses dados sejam usados de maneira adequada. Vou exemplificar isso por meio de três metáforas, que são metáforas de profissionais: a do jornalista, a do bibliotecário e a do curador de museu. Vou tentar vender a idéia de que nós, profissionais de sistemas, deveríamos aprender muito com os jornalistas e com os curadores de museus. Alguém de vocês já fez curso de jornalismo e de curadoria de museu? Espero que, com o que vou dizer, vocês se motivem a ter uma visão nova. Nós, como profissionais de sistemas, fomos muito competentes como bibliotecários, isto é, fomos competentes em coletar, armazenar, organizar os dados e também apoiar a consulta dos usuários a esses dados, mas de acordo com aquilo que eles, os usuários, pedem. E nós somos relativamente passivos nessa atividade. Se o usuário faz uso indevido desses dados dizemos que não é problema nosso, pois fornecemos os dados do jeito que ele pediu, armazenamos os dados fielmente e fomos os fieis depositários dos dados que nos foram confiados.

Já o jornalista tem uma postura muito mais pró-ativa em relação a esses dados, não fica sentado esperando que o usuário venha pedir os dados. O que ele faz, como iniciativa dele, é identificar no passado alguma situação, algum evento, alguma tendência, que acha que seja importante para os seus leitores, para os seus clientes, tomarem conhecimento. Para isso ele seleciona os dados. A partir desses dados selecionados, o jornalista vai procurar mostrar evidências daquele fato, daquela situação, daquela tendência, que acredita ser importante, e a interpreta para o usuário. Fornece, por exemplo, por meio de um artigo ou reportagem, a notícia, que também é uma seleção entre tantas coisas que aconteceram e ele, jornalista, entendeu como sendo importante para o usuário. Não é surpresa que, quando o usuário recebe as informações do jornalista ele diga: "Isso me ajuda, porque é relevante para mim". Isso acontece porque o jornalista já tomou a decisão antes, identificou previamente o que aquele usuário precisava. Então o jornalista consegue ser mais relevante no dia-a-dia por conta desta seleção que faz dos fatos. Aí vocês podem dizer: "Bom, tem o viés do jornalista, que ele obviamente usou para isso". Se o usuário conhece o viés do jornalista, do jornal A, do jornal B, ele consegue viver muito bem com esse viés.

Assim, a primeira recomendação para que nós, profissionais de sistemas, é de que sejamos mais eficazes nessa reconstrução do passado para o nosso usuário, que tenhamos uma postura mais pró-ativa. Temos que entender qual é a situação, o problema, o interesse, o viés, a ideologia do usuário para lhe oferecer um produto mais sob medida e melhor escolhido para a sua necessidade.

A outra metáfora, que creio que seja talvez até mais interessante, é a do curador de museu. Eu não sou curador de museu, mas sou freqüentador, gosto de museu. Minha mulher diz que tudo que é velho me agrada e talvez ela tenha razão: gosto de entender o presente a partir do passado. O que eu entendo que faz o curador de museus? Ele tem um acervo enorme de dados, de objetos tangíveis, de informações que o museu possui e organiza exposições. Por exemplo, se vai fazer exposição sobre a vida de um certo artista, ele vai selecionar e organizar os objetos que mostram a vida desse artista, como um pintor, por exemplo. Ele vai usar, não só as obras daquele pintor ao longo da sua vida para mostrar a sua evolução ao longo do tempo, mas vai usar outros objetos que caracterizam as várias épocas da vida daquele indivíduo para que os visitantes entendam em que contexto aqueles objetos foram criados. Ele não vai dizer para mim, como o jornalista diria: "Você deve entender a vida daquele pintor, daquele escultor, dessa maneira". Ele vai me induzir a uma certa leitura. Se eu visitar aquela exposição, vou seguir uma seqüência física pré-determinada, vou entender como tudo evoluiu. Claro que a interpretação é minha, mas o curador de museu já induziu um certo encaminhamento para isso. O que o curador fez? Ele não só me apresentou os dados, como o bibliotecário faria, mas recriou contextos que me ajudaram a interpretar aqueles dados. Então essa idéia de recriar contextos e de selecionar objetos faz com que eu tenha uma visão mais adequada, mais correta daquele passado, que pode me ajudar a tomar decisões hoje.

O que isso poderia significar para nós em termos de sistemas? Não vamos organizar exposições de objetos. Mas, por exemplo, armazenamos a série histórica de dados de despesas de um órgão e de repente há um ano em que houve um enorme salto na despesa. O usuário que, lá no futuro, vir esses dados provavelmente terá uma distorção se fizer uma projeção mais séria de tempo disso. Porque houve esse aumento enorme de despesa? Por isso seria muito importante que nós, junto com aquela série de tempo, registrássemos o fato que levou à situação. Foi, por exemplo, uma reorganização de secretaria, foi a incorporação de uma nova função, um projeto de modernização das atividades etc. São informações importantes para o usuário, no futuro, saber para que interprete corretamente aquele enorme salto.