Ano I, nº 2 - maio de 2007
» Expediente

Nosso conceito de tempo e a crise na área de Tecnologia da Informação

Para isso eu começaria com um pouco de filosofia. A razão de eu usar o conceito de tempo para essa apresentação é o seguinte: em geral, a nossa lógica de sistemas está muito baseada em acelerar processos: isto é tempo, é dinheiro. Tempo significa eficácia de processo, eficiência de processo, efetividade de processos. Conseguir reduzir o tempo no qual se faz alguma coisa significa ganhos para a sociedade e está corretíssimo. Essa é a lógica que usamos para os nossos sistemas, em grande parte, se considerarmos esse tempo linear, medido em dias, horas, minutos, segundos, frações de segundos. Esse tempo linear que nós procuramos economizar usando sistemas é uma das lógicas para fazer sistemas, obviamente. Existe toda uma filosofia, uma sociologia do tempo, que aqui não nos interessa tanto. Mas quero chamar a atenção para o que vou ler. "A partir da perspectiva do tempo linear criam-se os conceitos de colonização do tempo, colonização do futuro e reconstrução do passado". Podem parecer coisas estranhas, mas a colonização do tempo é realmente a idéia de colonizar e tomar conta do tempo. Que tempo é esse? O tempo presente, o tempo passado e o tempo futuro. Vamos ver o que isso significa e onde é que a gente chegaria com isso.

Em primeiro lugar, a colonização do tempo presente. O que significa isso para nós? Significa que nós impomos a nossa realidade, a nossa vivência do momento atual, o tempo de relógio, que é esse tempo linear, isto é, nós da cidade grande vivemos isso com muito mais intensidade, essa certa paranóia de economia de tempo. Acho que uma das coisas que mais nos angustia é estar perdendo tempo. Nós procuramos economizar tempo, ganhar tempo, quem está no transporte coletivo aproveita o tempo para ler, não olha para fora simplesmente. Quem está no almoço, vemos muito isso em restaurantes, está sentado comendo e lendo ou trabalhando. Quem viaja vê nas salas de espera dos aeroportos o pessoal trabalhando furiosamente no seu computador, essa sensação de que o tempo tem que ser ocupado de maneira produtiva gerando benefícios econômicos. Isso é a colonização do tempo em si: ocupando cada vez mais o tempo já controlado e, por outro lado, fazendo avançar esse tempo controlado sobre aquele tempo que era tido como tempo livre.

No almoço hoje um dos colegas de vocês falou que estava de madrugada pagando suas contas no sistema de e-banking. Essa na verdade era uma função do banco durante o horário normal de trabalho, mas quase todos nós fazemos isso: de noite estamos lá fazendo nossa declaração de imposto de renda, pagando nossas contas, etc. O que é isso? É esse tempo controlado linear que tomou conta, que colonizou o nosso tempo livre. E nós aceitamos isso com uma enorme facilidade. Vocês podem até enxergar nisso problemas éticos e eu também veria desta maneira. Mas trata-se de uma característica da nossa sociedade moderna urbana. E nós, fazedores de sistemas, contribuímos de maneira decisiva para isso, pois sem a nossa contribuição essa colonização do tempo não aconteceria.

Existe uma outra colonização que talvez seja mais forte ainda e que os sociólogos chamam de colonização do tempo futuro, isto é: nós não só tomamos conta do nosso tempo presente, mas já tomamos conta, antecipadamente, do nosso tempo futuro, já definimos o nosso futuro. Como fazemos isso? Partindo do pressuposto que o futuro pode ser regulado, pode ser projetado, já pode ser explorado no presente. Ou seja: podemos descontar o futuro, como título, e fazer uso do futuro no presente, podemos atribuir um valor econômico ao futuro e desfrutar isso no presente. Como fazemos isso? Planejando nossas atividades no futuro de tal maneira que podemos até dizer que o futuro já aconteceu. Se eu considero que o futuro é perfeitamente definível e eu o planejo, na realidade ele já aconteceu. Não sei se isso faz um sentido para vocês, mas Zygmund Bauman, um sociólogo muito conhecido, diz que isso significa o uso parasitário do futuro. Nós estamos como parasitas do futuro, tomando conta dele agora. Uma outra socióloga chama esse futuro não mais de futuro, mas de presente estendido, porque organizamos, domamos, colonizamos antecipadamente este futuro e ele praticamente já aconteceu. Nesse ponto começa a minha anti-narrativa, essa narrativa de que o futuro colonizado se justifica por razões econômicas: realmente eliminamos incertezas do futuro por meio do planejamento, o que traz benefícios econômicos para a sociedade, para as organizações.

Existe uma anti-narrativa nisso que é extremamente importante e que eu queria explorar agora para o resto da palestra. Uma delas vem de um grupo de sociólogos, principalmente, que estão dizendo: "Cuidado, vocês estão brincando com fogo ou na realidade vocês não estão brincando com o fogo, vocês estão causando incêndios que vocês não têm como apagar". Eles juntaram isso com a idéia de sociedade do risco. Eles dizem que estamos - com nossos sistemas de informações, com a nossa tecnologia - criando riscos para a sociedade de um tamanho que a sociedade não imagina, mas o que ela também não imagina é que nós não temos tempo nem condições de remediar esses riscos. Por exemplo: as últimas grandes crises financeiras, que quase que derrubaram o Brasil, foram crises artificiais, causadas por ruídos do sistema financeiro internacional altamente integrado com o futuro colonizado, com o presente altamente acelerado, que nós não tivemos condições de controlar. Ulrich Beck e outros dizem "vocês estão criando sistemas tão integrados, tão sofisticados, que eles estão além de sua capacidade de tratar". É a história do aprendiz de feiticeiro. Até onde deveríamos ir com nossos sistemas de maneira responsável? Ulrich Beck fala na irresponsabilidade organizada da sociedade moderna que organiza a coisa de tal maneira que acaba sendo irresponsável - e não são apenas as grandes catástrofes ambientais, como Chernobyl e etc, mas, inclusive, catástrofes que criamos com nossos sistemas. Não quero assustar vocês demais, talvez a gente possa voltar a esse assunto depois.