Ano I, nº 2 - maio de 2007
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Nosso conceito de tempo e a crise na área de Tecnologia da Informação

Além disso, estamos gastando em tecnologia da informação: a cada hora que passa a porcentagem do orçamento para TI nas organizações é maior. Pesquisas da Fundação Getúlio Vargas mostram que em 15 anos quadruplicou o que as empresas gastam com informática em relação ao seu faturamento. A mesma coisa vale para orçamentos governamentais: a última pesquisa que fiz sobre o governo brasileiro mostra que em geral gastamos 1% do orçamento do governo em informática - e 1% é muito dinheiro. Outros países, como os Estados Unidos, gastam 2%, enquanto países da Escandinávia gastam até mais que 2%. Mas 1% já é muito dinheiro.

Mesmo assim observamos que nas empresas privadas a área de sistemas está perdendo valor estratégico, perdendo importância. Se antigamente tínhamos um diretor de sistemas, hoje temos apenas um gerente de sistemas que está pendurado no terceiro escalão da organização. Em geral, o gerente de sistemas não participa mais, nas organizações privadas, da formulação de estratégias: ele é visto como alguém que fornece um serviço de infra-estrutura, mas não de formulação estratégica. Há exceções, como os bancos, nos quais a informática é realmente fundamental. Mas, em geral, o profissional de informática perdeu a sua importância. E o que é pior para nós, profissionais de sistemas: as grandes inovações, que eu chamaria aqui de rupturas - e significam mudanças de paradigmas e do modo de encarar as coisas usando o sistema de informações não vêm de iniciativas da área de sistemas, mas de iniciativas da área usuária que de certa maneira, impõem aquela inovação à organização e a área de sistemas é obrigada a considerar. Aliás, uma das coisas que observamos nas grandes inovações de informática que hoje fazem parte do nosso cotidiano é que elas não foram criadas por nós, analistas de sistemas: foram criadas por terceiros.

O Google não veio da área de profissionais de sistemas, assim como os microcomputadores e uma série de outras coisas: os browsers e o correio eletrônico não fomos nós que criamos. Vieram de outras áreas e fomos competentes para introduzi-los nas empresas, mas não fomos os agentes da mudança da ruptura. Por conta disso também os nossos cursos de sistemas da informação, infelizmente, perderam o lustro. Temos cada vez menos candidatos que buscam a área de sistemas como sua opção profissional e isto é uma crise, não só no Brasil, mas principalmente no mundo. Lá fora, a explicação para essa situação vem, em grande parte, do fato de que, como se diz "estão terceirizando tudo para a Índia, o Paquistão, então não tem mais emprego na área de sistemas". No Brasil estamos, pelo contrário, procurando ser competitivos no mercado internacional, mas com sucesso relativo porque a área de sistemas claramente perdeu uma boa parte do seu brilho.

O que poderíamos fazer, como profissionais, para voltarmos a ser mais relevantes nas organizações? A resposta que procurei para dar a vocês - e que, obviamente, espero que seja polêmica e discutida depois - é que deixamos de ser relevantes porque não nos preocupamos em entender suficientemente o negócio das nossas organizações - seja governo, sejam empresas - a ponto de entender, não aquilo que o cliente, o usuário, está pedindo, mas a direção na qual aquela organização e as suas necessidades estão caminhando. Não estamos conseguindo ser suficientemente visionários e pró-ativos para ter soluções. Por outro lado, não estamos olhando com suficiente atenção para as inovações tecnológicas que estão surgindo, portanto fica difícil enxergarmos a ponte entre as inovações que estão surgindo, que não estão nem consolidadas, e aquelas necessidades que o usuário nem se quer conseguiu verbalizar ainda. Isto seria alguma coisa como entender que um artefato técnico, inovador, exemplo disso que aí está, seria uma inovação tecnológica que ainda não tem aplicação ou não é visto como aplicação.

Eu diria, por exemplo, que temos dificuldade para entender como a imagem em movimento poderia contribuir nos processos de órgãos de governo; o quê, por exemplo, significaria uma inovação que na área de medicina já está sendo usada: a percepção tátil. Hoje, quando apertamos uma tecla, ou duas teclas, do teclado do computador todas elas reagem da mesma maneira: aparece um sinal. Temos ainda o uso para interfaces que reagem à força com que apertamos, como uma pessoa reage à força como reação àquilo que nós fazemos e não sabemos o que fazer com isso. Enfim, inovações deste tipo talvez possam criar aplicações visionárias que nós não tivemos a oportunidade de criar. O que nós sabemos fazer, porém, é que quando esta inovação já está definida - o usuário já especificou o que ele quer - sabemos muito bem torná-la isso um produto, criar metodologias, arquiteturas e padrões, conseguimos criar objetivos de negócios e desenvolver aplicações. No entanto, se quiséssemos ser realmente estratégicos e entrar em aplicações de ruptura, teríamos que antecipar tudo isso. Obviamente é muito mais fácil falar do que fazer, porque teríamos que estar monitorando continuamente as inovações tecnológicas, monitorando não o que o usuário precisa, mas para onde está indo a administração pública, para onde está indo a organização na qual trabalhamos. Essa seria a função de uma área de projetos ou de pesquisas, como a IplanRio tem. Mas, na verdade, estar atento para isso seria necessário para que todos nós fossemos mais estratégicos e mais relevantes.

Quero, aqui, usar um conceito de tempo, ou vários conceitos de tempo, para mostrar algumas coisas que poderiam nos levar a ser mais estratégicos no uso de sistemas de informação. Até podemos esquecer, passar rapidamente por cima disso. Vou falar em tempo linear e tempo de escolha, mas vou definir depois. Para vocês, que são da área de sistema, não preciso repetir essas definições: elas são conhecidas, então podemos passar adiante, porque elas estão aqui mais para constar.

Gostaria de apresentar uma maneira de discutir, ou de relatar, a evolução de sistemas que eu espero que nos ajude a compreender as coisas. Quero fazer isso por meio de narrativa e anti-narrativa. A narrativa oficial é a maneira como a organização entende a informática, como ela apresenta essa informática. Então a narrativa oficial da nossa informática é aquela que apresenta a nossa tecnologia como dando suporte a processos administrativos, demonstrando a relação custo-benefício adequada para essas aplicações. A partir da racionalidade do negócio derivamos à racionalidade do sistema, isto é, a nossa narrativa oficial. Assim consolidamos nossos planos, nossos projetos, nossos sistemas, não há absolutamente nada de errado com isso, é o que tem que ser feito. Mas esta narrativa oficial, ao mesmo tempo em que explicita a lógica econômica dos sistemas, esconde um outro lado dos sistemas que quero explorar nesta minha apresentação e que, espero, dê espaço para visões novas de sistemas, novas oportunidades de usos de sistemas que em geral não temos visto, estado atentos para elas nas nossas organizações.