Ano I, nº 2 - maio de 2007
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Nosso conceito de tempo e a crise na área de Tecnologia da Informação

Nicolau Reinhard

Rio de Janeiro, 28 de abril de 2007

Boa tarde pessoal. Em geral, quando começo um curso, os alunos de um jeito ou de outro me perguntam: "Professor, o senhor só dá aula ou também trabalha?" Então vou apresentar-me e dizer que eu também já trabalhei: fui operador de computador quando vocês nem eram nascidos, ainda havia equipamento convencional (perguntem ao seu avô o que era isso) eu programei linguagem de máquinas Asembler, Fortran cobol, essas coisas todas. Então estive do lado de vocês, fui gerente de CPD, fui CEO de empresa e de órgão público. Depois cansei de trabalhar e virei professor e consultor...

Mas hoje eu queria discutir com vocês - na realidade eu queria provocar vocês para uma discussão, que eu espero que seja razoavelmente viva, porque a esta hora da tarde ficar acordado é complicado. O Vinícius, Subcontrolador, me falou que o pessoal faz cara de screen saver. Então quero evitar que vocês façam cara de screen saver ou pelo menos não façam cara de tela azul.

Em primeiro lugar uma pergunta: quem de vocês se considera profissional de informática, o que quer que seja isso? Os outros então são clientes e vocês que se cobram porque acham que não estão fazendo o que deviam fazer. É isso? (A platéia responde que sim). Bom, eu já estive dos dois lados: já fui cliente e já fui fornecedor, apanhei dos dois lados por isso, o que eu falar mal da informática vale para mim de um lado ou de outro também.

Como disse antes, queria provocar vocês, falar de uma informática que nós não fazemos. A informática que fazemos, e que a IplanRio faz aqui no Rio de Janeiro, é a informática correta, com a organização correta - centralizando operações, visões de processos, etc. Essa informática nós sabemos fazer e não fazemos melhor porque, em geral, ou não temos recursos ou porque o contexto organizacional não nos dá as condições de fazer - mas isto sabemos fazer.

O que gostaria de discutir com vocês é uma outra informática que deveríamos estar fazendo, mas que nas organizações às vezes nem estamos enxergando. Queria provocar vocês nesse sentido, e para isso gostaria de usar uma abordagem que, no começo, pode parecer um pouco filosófica, mas que vai procurar apontar para uma coisa que não está tão visível naquilo que vemos em geral. A estrutura da apresentação tem muitos pontos, mas não é tão longa assim, espero que tenhamos tempo para discutir as coisas.

Eu queria começar dizendo que estamos mal. Na verdade não queria dizer isso dessa maneira, mas lamento informar que vocês, da área de informática, nasceram na década errada. Vocês já podem ter cometido um monte de erros, mas este é um dos erros mais graves que cometeram, porque eu comecei a fazer informática numa época em que tínhamos o monopólio da tecnologia, o monopólio da aplicação, e quando dizíamos que não dava para fazer o usuário era obrigado a aceitar. Então, era muito mais confortável construir sistemas nessa época. Hoje, se você disser que não dá para fazer um sistema o usuário diz: "Bom, então tem outro, do lado, que faz". Lamento informar, mas acabou a festa! A nossa área de sistema de informações computadorizado claramente está em crise. Eu, como professor universitário, vejo uma crise do lado acadêmico. Mas nós temos também uma crise do lado profissional que quero discutir como motivação para o trabalho.

Sobre o lado acadêmico: quem de vocês aqui é professor de informática? Provavelmente vocês estão vivendo a situação de que a área de sistema de informação, e também de ciência da computação, perdeu o brilho acadêmico: não atrai mais tantos alunos como atraia em tempos passados. Existe um artigo muito conhecido intitulado "Nada no centro", que afirma que a área de sistema de informação não tem legitimidade acadêmica porque não criou um corpo de doutrina própria, uma teoria própria: vive a reboque de outras áreas. Assim, um dos grandes problemas de quem desenvolve pesquisas em sistemas é que, quando desenvolvemos uma nova aplicação, uma nova tecnologia, na medida em que ela amadurece outros se apropriam dela. Por exemplo: o comércio eletrônico, o governo eletrônico, o banco eletrônico, tudo foi criado na nossa área, mas na medida em que foi amadurecendo, as áreas de operações, de marketing, de teoria das organizações, assumiram e fazem agora a continuação com muito mais competência acadêmica do que nós, da área de sistemas.

Por isso devemos criar, buscar outra inovação e trazê-la para a maturidade, ainda que outros assumam depois. Estamos sempre com um alvo-móvel, sempre buscando coisas novas, e quando a novidade poderia estar estabilizada com teoria própria, outros a fazem também. Há gente que diz: "Vocês são temporários na pesquisa". Que resposta poderíamos dar como acadêmicos? Focar, não tanto na informação, mas nos artefatos de TI. Mas o que significaria isso? Avancei um pouco demais aqui, em seguida volto a este tema, de como poderíamos ser academicamente relevantes em sistemas. Como a maior parte de vocês são profissionais, esse tema talvez não seja tão interessante...

Eu quero tratar de um problema que diz respeito a todos nós enquanto profissionais: estamos sendo considerados cada vez menos relevantes como profissionais em sistemas, o que é um razoável contra-senso, porque cada vez mais os nossos processos, as organizações, o governo, a sociedade, dependem da tecnologia que desenvolvemos. Cada vez mais a sociedade enxerga sistemas, interage diretamente com sistemas. Em épocas passadas, os sistemas estavam na retaguarda das organizações, hoje estão na vida de cada pessoa.